Uma das poucas coisas que aprendi durante a minha imaturação foi a certeza de que, enquanto não acreditamos numa coisa, ela não é, de facto, possível.
Sábado, Julho 04, 2009
Contradições
No livro "Marca de água", Iosif Brodskii relata o incómodo sentido por ele e por Susan Sontag quando foram convidados a visitarem a viúva de Ezra Pound em Veneza. O incómodo resultava, claro, da reputação anti-semita do poeta americano. Curiosamente, este Brodskii tão ético (que igualmente se opõe ao fascimo italiano do passado e ao comunismo do seu país natal) é o mesmo que, páginas atrás, fizera alguns comentários definitivamente homófobos...
Ao mesmo tempo, Brodskii critica a obra de Pound por esta pretender instaurar algo de novo. Segundo o autor de "Paisagem com inundação", essa vontade do novo não passa de uma operação de cosmética sobre uma arte, a poesia, que é fundamentalmente muito antiga. Interessante conservadorismo que agradaria a muitos autores portugueses... No entanto, a força da poesia de Brodskii reside, em grande parte, na novidade da estratégia com que cada um dos seus textos aborda o seu assunto (um dos exemplos mais evidentes é o ciclo de poemas sobre os centauros). Para além de que ele é um escritor obcecado por encontrar metáforas inéditas, e a verdade é que o sucesso dessa sua busca aventurosa é constante...
Não estou aqui a criticar o conservadorismo de Brodskii, mas a defender que ele é um poeta puro. Aquilo que ele articula em forma de poema é muito mais amplo e generoso do que aquilo que articula através da prosa. Na sua poesia, a provável contradição é uma forma de liberdade.
Ao mesmo tempo, Brodskii critica a obra de Pound por esta pretender instaurar algo de novo. Segundo o autor de "Paisagem com inundação", essa vontade do novo não passa de uma operação de cosmética sobre uma arte, a poesia, que é fundamentalmente muito antiga. Interessante conservadorismo que agradaria a muitos autores portugueses... No entanto, a força da poesia de Brodskii reside, em grande parte, na novidade da estratégia com que cada um dos seus textos aborda o seu assunto (um dos exemplos mais evidentes é o ciclo de poemas sobre os centauros). Para além de que ele é um escritor obcecado por encontrar metáforas inéditas, e a verdade é que o sucesso dessa sua busca aventurosa é constante...
Não estou aqui a criticar o conservadorismo de Brodskii, mas a defender que ele é um poeta puro. Aquilo que ele articula em forma de poema é muito mais amplo e generoso do que aquilo que articula através da prosa. Na sua poesia, a provável contradição é uma forma de liberdade.
Um questão de poéticas
Uma das coisas que mais admiro no trabalho de Jorge Silva Melo é o seu desejo de comunicação política directa com o espectador, sendo este considerado na sua espeficidade cultural presente e local. É um autor que se dirige a uma polis concreta. A sua vontade de rescrever o "Édipo Rei" de Sófocles para melhor poder comunicar com um público que já não sabe nada dos estranhos deuses da mitologia grega, a sua falta de gosto pelas notas de rodapé, são exemplos dessa permanente inquietação cívica.
No entanto, se eu também me interesso, por um lado, pelo lugares comuns culturais que compõem a mitologia partilhada de uma determinada comunidade (e agora até estou mais preocupado em, por exemplo, indagar as metáforas antigas do que em criar novas metáforas), a verdade é que me apaixona igualmente todo o conhecimento que seja improvável, distante, selvagem, secreto. O deus Vertumno, um filme do Burkina Faso, uma flor excêntrica que ainda ninguém descobriu no seio da Amazónia, uma palavra dum dialecto de Itália, um rapaz entrevisto numa viagem ao Brasil, uma lua de Saturno ou o nome latino de um peixe que só existe no Lago Malawi: tudo isto me seduz tanto quanto a Declaração Universal dos Direitos do Homem, a obra de Shakespeare, o rock'n roll ou a figura de Cristo. Não consigo ser apenas um elemento da comunidade. Tenho também de ser um explorador dos tesouros singulares.
Um dia destes faço um livro só com notas de rodapé.
No entanto, se eu também me interesso, por um lado, pelo lugares comuns culturais que compõem a mitologia partilhada de uma determinada comunidade (e agora até estou mais preocupado em, por exemplo, indagar as metáforas antigas do que em criar novas metáforas), a verdade é que me apaixona igualmente todo o conhecimento que seja improvável, distante, selvagem, secreto. O deus Vertumno, um filme do Burkina Faso, uma flor excêntrica que ainda ninguém descobriu no seio da Amazónia, uma palavra dum dialecto de Itália, um rapaz entrevisto numa viagem ao Brasil, uma lua de Saturno ou o nome latino de um peixe que só existe no Lago Malawi: tudo isto me seduz tanto quanto a Declaração Universal dos Direitos do Homem, a obra de Shakespeare, o rock'n roll ou a figura de Cristo. Não consigo ser apenas um elemento da comunidade. Tenho também de ser um explorador dos tesouros singulares.
Um dia destes faço um livro só com notas de rodapé.
Quinta-feira, Julho 02, 2009
Partilha 53
antiques roadshow
"foi-me dada por um ser
que deixou de ser crido"
que deixou de ser crido"
a chuva é a letra miudinha
do contrato do mundo
é à socapa que ela cai
já no antigo estado civil
na sintaxe dos dois seres
prevê o pranto a forma
que pode o insólito isolado
soluçar como consolo
no seu solilóquio
sem deus amor ou vida
a não ser a aliteração
que desanuvia a palavra
...........................................sol
do contrato do mundo
é à socapa que ela cai
já no antigo estado civil
na sintaxe dos dois seres
prevê o pranto a forma
que pode o insólito isolado
soluçar como consolo
no seu solilóquio
sem deus amor ou vida
a não ser a aliteração
que desanuvia a palavra
...........................................sol
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o trabalho do milionário,
Obra pessoal
Quarta-feira, Julho 01, 2009
A mais bela música de sempre? 4
Madrigal de Claudio Monteverdi, com base num poema de Petrarca, pertencente ao seu 8º Livro de Madrigais.
Nota "Un conte de Noël"
Em "Un conte de Noël", Arnaud Desplechin faz também a sua própria versão de um filme de Ingmar Bergman. A tese é confirmada a vários títulos: escolha da temática organizadora (a degeneração física, assunto eminentemente bergmaniano, tanto mais que o autor sueco permanece quase isolado na capacidade de construir um bom filme a partir de um assunto tão propenso ao sentimentalismo predador), apetência por certas cenas de género (o teatrinho e o jantar de Natal fazem lembrar "Fanny e Alexandre"), estratégias narrativas (as interacções psicológicas decisivas entre as personagens de um grupo são uma constante em Bergman; o idílio ilusório da cena final, algo falhada, de resto, é uma citação da conclusão brutal de "Lágrimas e suspiros").Desplechin afasta-se de Bergman, contudo, em aspectos muito concretos: na profusão de tons contrastantes (que o francês consegue harmonizar num todo brilhantemente consequente), na overdose de citações (a música remete para as bandas sonoras de Bernard Herrman, Michael Nyman, e etc.), na ausência de um parti pris formal (dos efeitos de íris aos zooms rápidos, da montagem paralela à inadequação entre música e acção, nenhuma opção instaura aqui um método semanticamente estruturado), no recurso a alta e baixa cultura (tanto há citações de Nietzsche como momentos de habilidade de um DJ), na sensação de energia esfuziante. É, aliás, esta sensação de energia que faz com que o pulsar do sangue (mau ou bom, faz todo parte do património fisiológico de uma família) não seja apenas um assunto (ou uma metáfora) mas o próprio princípio de prazer que emana da encenação e contagia o espectador. "Un conte de Noël" pareceu-me um filme literalmente latejante (ao que não será alheio o extraordinário empenho de todos os actores).
Se juntar a isto o gosto de Desplechin pelas ficções salinas (que igualmente fazia o encanto de José Álvaro Morais, igualmente menosprezado por um crítica que prefere os truques de circo de Quentin Tarantino) e a belíssima história secundária protagonizada por Chiara Mastroiani (o ser capaz de inventar a humanidade de quem ama), posso afirmar, sem receio nem poder, que gostei imenso de "Un conte de Noël".
A família é uma roleta russa do sangue.
O INACTUAL 36
"Edvard Munch" - Peter Watkins (1974)Os cineastas ou têm vergonha por não serem artistas, ou têm vaidade por pensarem que o são. Aliás, se a palavra artista é confundida com uma forma de estatuto, mais vale que a abandonemos por completo. Certo é que a relação entre cinema e pintura é dada a todo o tipo de equívocos. Não só os cineastas preferem citar pintores (João Botelho) em vez de pintarem eles mesmos (Godard), como se põe em bicos de pés sempre que o assunto é a pintura. Seja Minnelli, irremediável provinciano (mas fez alguns filmes que eu adoro!), que filma Van Gogh como se ele pertencesse a um domínio da humanidade que o transcende (ou Milos Forman com Mozart). Seja Rivette que mistifica toda a aventura associada à pintura (e já tremo pelo que Jane Campion fez com John Keats...). Os cineastas, como os pintores, músicos ou escritores, são fazedores. E o que os pode distinguir é o empenho (político e estético) com que vivem esse seu fazer. O resto é assunto para os Ministérios da Cultura.
Por isso surpreende, nesta obra de Peter Watkins, a seriedade com que a biografia e obra do pintor norueguês Edvard Munch são tratadas. É quase a seriedade de um universitário: o filme providencia a devida contextualização sócio-histórica da actividade do artista, faz efectiva análise pictórica, o seu rigor narrativo e expositivo equivale ao de uma monografia responsável.
Claro que o filme é um mock documentary (os personagens do século XIX falam de frente para uma câmara de cinema que não existia então, a encenação está constantemente a fingir reenquadramentos e refocagens para criar a ilusão de uma filmagem não planificada), o que desde logo confere uma agilidade lúdica à seriedade do ensaio. Ao mesmo tempo, Watkins constrói o seu pseudo-documentário a partir de um tom evidentemente bergmaniano (que funciona aqui como sinédoque da psicologia nórdica) e através de um tratamento verdadeiramente pictórico da imagem cinematográfica. À excepção do filme "O sol do marmeleiro" de Victor Erice, não conheço, na história do cinema, um outro método tão eficaz e justo para abordar a vida e a obra de um pintor.
Watkins tem, claramente, uma tese sobe Munch, a saber: ao homem que genuinamente valoriza o papel do Amor, não lhe serve nem o mundo conservador com as suas regras hipócritas e o seu exibicionismo virtuoso, nem o mundo dito revolucionário que surge como reacção a este, com todas as suas liberdades cruéis e todo o seu cinismo imprevisto. É este o drama do pintor norueguês, e é daí que a sua pintura adquire toda a força-de-um-grito (e é aí que estamos ainda hoje em dia...). Claro que, ao drama munchiano, também se acrescentam a constante contaminação do amor pela morte (cada nova mulher da sua vida é minada pelo retorno das imagens dos vários casos de tuberculose na sua família) e a constante tensão que o pintor viveu entre o legado familiar (nomeadamente no que concerne a uma suposta pureza protestante) e as necessidades individuais verídicas que a vida acaba sempre por trazer a um adulto. Mas o essencial da sua pintura (aquilo que faz dele um artista) é a incapacidade da política em sentido convencional (e superficial) responder a uma espécie de cidadania profunda a que aspira o homem que se mantém fiel a si mesmo.
De resto, Peter Watkins não filma propriamente os quadros de Munch (a paragem do tempo) mas o processo de pintar. Daí o seu recurso àquilo que poderíamos chamar de montagem-pincelada (o obsessivo regresso de algumas imagens) que vai propondo, corrigindo, retocando, desviando, confirmando um retrato que acaba por ser mais clássico (no sentido positivo do termo) do que o trabalho do próprio retratado. Watkins não grita: edita o grito.
Por isso surpreende, nesta obra de Peter Watkins, a seriedade com que a biografia e obra do pintor norueguês Edvard Munch são tratadas. É quase a seriedade de um universitário: o filme providencia a devida contextualização sócio-histórica da actividade do artista, faz efectiva análise pictórica, o seu rigor narrativo e expositivo equivale ao de uma monografia responsável.
Claro que o filme é um mock documentary (os personagens do século XIX falam de frente para uma câmara de cinema que não existia então, a encenação está constantemente a fingir reenquadramentos e refocagens para criar a ilusão de uma filmagem não planificada), o que desde logo confere uma agilidade lúdica à seriedade do ensaio. Ao mesmo tempo, Watkins constrói o seu pseudo-documentário a partir de um tom evidentemente bergmaniano (que funciona aqui como sinédoque da psicologia nórdica) e através de um tratamento verdadeiramente pictórico da imagem cinematográfica. À excepção do filme "O sol do marmeleiro" de Victor Erice, não conheço, na história do cinema, um outro método tão eficaz e justo para abordar a vida e a obra de um pintor.
Watkins tem, claramente, uma tese sobe Munch, a saber: ao homem que genuinamente valoriza o papel do Amor, não lhe serve nem o mundo conservador com as suas regras hipócritas e o seu exibicionismo virtuoso, nem o mundo dito revolucionário que surge como reacção a este, com todas as suas liberdades cruéis e todo o seu cinismo imprevisto. É este o drama do pintor norueguês, e é daí que a sua pintura adquire toda a força-de-um-grito (e é aí que estamos ainda hoje em dia...). Claro que, ao drama munchiano, também se acrescentam a constante contaminação do amor pela morte (cada nova mulher da sua vida é minada pelo retorno das imagens dos vários casos de tuberculose na sua família) e a constante tensão que o pintor viveu entre o legado familiar (nomeadamente no que concerne a uma suposta pureza protestante) e as necessidades individuais verídicas que a vida acaba sempre por trazer a um adulto. Mas o essencial da sua pintura (aquilo que faz dele um artista) é a incapacidade da política em sentido convencional (e superficial) responder a uma espécie de cidadania profunda a que aspira o homem que se mantém fiel a si mesmo.
De resto, Peter Watkins não filma propriamente os quadros de Munch (a paragem do tempo) mas o processo de pintar. Daí o seu recurso àquilo que poderíamos chamar de montagem-pincelada (o obsessivo regresso de algumas imagens) que vai propondo, corrigindo, retocando, desviando, confirmando um retrato que acaba por ser mais clássico (no sentido positivo do termo) do que o trabalho do próprio retratado. Watkins não grita: edita o grito.
Sábado, Junho 27, 2009
Vertumno
"(...) Além de ter
de existir, uma pessoa tem de pagar todos os meses a existência."
Iosif Brodskii
de existir, uma pessoa tem de pagar todos os meses a existência."
Iosif Brodskii
Crónica do Museu
Na única vez que fui ao Louvre (que é um sítio onde uma pessoa que é pessoa deve ir), a visita seguiu-se a uma noite em que tinha estado numa discoteca com alguns companheiros de viagem e posteriormente regressado ao hotel a pé pelas ruas de Paris (continuo a não gostar de discotecas, mais os seus djs programadores e barmen curadores, mas acho que não há suficiente literatura sobre o ar livre nocturno das cidades). O que eu sei é que papei o maior número de quadrinhos possíveis, com curiosidade de atleta e resistência de intelectual comprometido, seguido pela raiva ensonada dos pés macerados dos compagnons de route. Juventude...Hoje, apesar de querer muito regressar ao Musée Gustave Moreau, de querer ir a Berna ver os Klees, de me estar a apaixonar por gabinetes de curiosidades tipo British Museum; apesar de, portanto, a ideia de Museu não ter esmorecido no meu imaginário, a verdade é que mal começo a calcorrear um destes espaços, começo a sentir aquilo que os guias de viagem chamam "museum fatigue". Mesmo que na noite anterior eu tenha adormecido ao som dos patinhos, dez minutos são suficientes para eu já não me aguentar nas pernas, para me irritar histericamente com a inevitável carteira a tiracolo, para me apetecer correr o mais depressa possível para o exterior (nem que seja com clima de País de Gales), e para eleger, como momento alto da minha visita, a passagem pela cafetaria do museu (que costuma fornecer comida kitsch tão ao meu gosto). Ou seja, na verdade, o meu corpo detesta museus (ah! a condição humana...).
E ponho-me a pensar qual seria a melhor maneira de eu suportar esta prova de resistência exigida ao turista sem talento? Claro que a solução do "Bande à part" é uma solução à parte. Eu não sou desportista. Mas sprintar por entre Ballas e Boccionis, patinar em torno da Pedra de Roseta, usar os Munchs como obstáculos de corrida, saltar à vara sobre o corpo hipotético do dinossauro, ou fazer um triplo salto sobre partituras de polifonia eborense, tudo isso tornaria a prestação bem mais exaltante e coerente. Mens sana in corpore sano, e o ensaio e a ecfrase acabariam por se tornar modalidades olímpicas.
Gostava, isso sim, que em vez de me darem aqueles auscultadores que são traumatizantes porque podem ser calados a qualquer momento, me fornecessem um guia de carne e osso, pessoa de erudição infinita, com jeito para a anedota e o aforismo, mago da palavra e histrião intimista, pintor nas horas frustradas mas apaixonado pela sua frustração, que me levasse de peça em peça com o mesmo sex appeal com que o Mic Mic escapa a todas as armadilhas da raposa. Que contasse histórias, revelasse inquietações, deixasse perguntas no ar, mais Mário Viegas que Luís Miguel Cintra, mais Quim Barreiros que Michael Jackson, comerciante de souq.
Gostava, isso sim, que os museus estivessem submersos (não me venham com fahrenheits de chamas), e precisássemos de escafandro para os visitarmos, que fosse preciso vencer o medo do mergulho, exercitar a respiração, sofrer a cerimónia do pacto com um elemento raro, mas nos fosse dado contemplar Turners lado a lado com restos de galeões, a "Giaconda" açambarcada por seres condenados a sashimi, e tubarões mais dados à forma do que ao formol. Veneza, de novo, avant guarde...
Ou então gostava de ser um extraterrestre, e chegar à Terra quando esta por fim estivesse liberta dos humanos (ainda pode ser no meu tempo, portanto), e visitar os museus como quem considera que tudo é rupestre, no duplo sentido da rudeza vital e de uma vontade de fazer, de cada ponto de chegada, um ponto de partida. Depois iria a pé até Marte (onde não há Museus).
(Fotografia de Andrew Prokos)
Quarta-feira, Junho 24, 2009
O INACTUAL 35
"Shijie" ("O mundo", em português) quase poderia ser um musical. Pelo tom, pela inocência das personagens, pelo trabalho cromático, pela musicalidade do conjunto. Gene Kelly e Leslie Caron dançam em Paris como o casal protagonista deste filme representa em frente de uma falsa Torre Eiffel. No entanto, é tudo menos um filme (de) provinciano.
O argumento de "O mundo" gira em torno de pequenas histórias (namoros, aproximações sexuais, infidelidades, zangas familiares, festas, ambições, procura de emprego, etc.) articuladas por meio da descontinuidade, da repetição, da elipse, da pontual falta de luz, das interrupções de tom, tudo organizado em torno de uma discreta estética do plano-sequência. O que essencialmente distingue o filme é que todas estas banalidades decorrem num Parque Temático de Pequim que lhes fornece, como cenários, imitações dos lugares mais famosos do mundo ao nível turístico (do Taj Mahal às Pirâmides do Egipto).
Contudo, para as personagens o estrangeiro acaba por revelar-se menos um apelo à evasão do que a geografia de todos os mitos (de todas as ideias que estão intelectualmente associadas a esses cenários). Os passeios de Tao no monocarril do Parque levam-na de lugar comum em lugar comum a grande velocidade (é uma verdadeira máquina do tempo). E é esta agilidade de um imaginário espiritual mundialmente partilhado que vem dar espessura à ficção descosida, aparentemente banal, sem grandeza.
Pois os personagens pensam que não representam no filme do mundo, pensam que vivem as suas pequenas narrativas sem serem contaminados pelos mitos civilizacionais. No entanto, não é isso que acontece. Não só ao nível das grandes linhas que afinal organizam o argumento das suas vidas (Tao exige um amor absoluto), mas sobretudo em termos da intensidade emocional com que as situações-chaves são vividas. As cenas passadas nos cenários-clichés não são meramente irónicas, mas sobretudo (e simultaneamente) exaltantes. Por exemplo, quando Tao lê uma mensagem sob um véu claro, à chuva, na falsa Praça de São Marcos, por um efeito de nostalgia cinéfila (que equivale a um regresso inconsciente aos fundamentos psíquicos) os espectadores sentem duplicada a comoção que a cena provoca. É como se um filme sempre anterior (o filme do mundo) viesse ao mesmo tempo revelar e desconstruir a profundidade cultural que existe por baixo de qualquer acto, por mais banal que seja.
Jia Zhang Ke faz não só um dos primeiros filmes relevantes sobre o conceito de Aldeia Global (relevância que é especificamente cinematográfica, e não literária), como talha um subtil manifesto político, ao confrontar os dirigentes da ditadura chinesa com a ideia de que não há propaganda nacional que seja capaz de vencer aquilo que está para lá das fronteiras (literais e metafóricas). O espírito resiste porque guarda em si mesmo o papelão da verdade corpórea.
(Para os manifestantes iranianos)
O argumento de "O mundo" gira em torno de pequenas histórias (namoros, aproximações sexuais, infidelidades, zangas familiares, festas, ambições, procura de emprego, etc.) articuladas por meio da descontinuidade, da repetição, da elipse, da pontual falta de luz, das interrupções de tom, tudo organizado em torno de uma discreta estética do plano-sequência. O que essencialmente distingue o filme é que todas estas banalidades decorrem num Parque Temático de Pequim que lhes fornece, como cenários, imitações dos lugares mais famosos do mundo ao nível turístico (do Taj Mahal às Pirâmides do Egipto).
Contudo, para as personagens o estrangeiro acaba por revelar-se menos um apelo à evasão do que a geografia de todos os mitos (de todas as ideias que estão intelectualmente associadas a esses cenários). Os passeios de Tao no monocarril do Parque levam-na de lugar comum em lugar comum a grande velocidade (é uma verdadeira máquina do tempo). E é esta agilidade de um imaginário espiritual mundialmente partilhado que vem dar espessura à ficção descosida, aparentemente banal, sem grandeza.
Pois os personagens pensam que não representam no filme do mundo, pensam que vivem as suas pequenas narrativas sem serem contaminados pelos mitos civilizacionais. No entanto, não é isso que acontece. Não só ao nível das grandes linhas que afinal organizam o argumento das suas vidas (Tao exige um amor absoluto), mas sobretudo em termos da intensidade emocional com que as situações-chaves são vividas. As cenas passadas nos cenários-clichés não são meramente irónicas, mas sobretudo (e simultaneamente) exaltantes. Por exemplo, quando Tao lê uma mensagem sob um véu claro, à chuva, na falsa Praça de São Marcos, por um efeito de nostalgia cinéfila (que equivale a um regresso inconsciente aos fundamentos psíquicos) os espectadores sentem duplicada a comoção que a cena provoca. É como se um filme sempre anterior (o filme do mundo) viesse ao mesmo tempo revelar e desconstruir a profundidade cultural que existe por baixo de qualquer acto, por mais banal que seja.
Jia Zhang Ke faz não só um dos primeiros filmes relevantes sobre o conceito de Aldeia Global (relevância que é especificamente cinematográfica, e não literária), como talha um subtil manifesto político, ao confrontar os dirigentes da ditadura chinesa com a ideia de que não há propaganda nacional que seja capaz de vencer aquilo que está para lá das fronteiras (literais e metafóricas). O espírito resiste porque guarda em si mesmo o papelão da verdade corpórea.
(Para os manifestantes iranianos)
Domingo, Junho 21, 2009
Partilha 52
crítica da razão desconhecida
sim
.......o primeiro ataque foi precoce
poderoso
resultado não tanto do seu corpo
afinal demasiado diplomático
para insurgir os amargos da boca
mas do espectro de aromas:
nobreza vermelha, sémen silvestre
com notas de trabalho
e sugestões de morte e chocolate
mas logo a adstringência
levou ao final
prolongado e exuberante
do disparate
foi um voto, um talento, uma paixão
que abortou
sim
.......o primeiro ataque foi precoce
poderoso
resultado não tanto do seu corpo
afinal demasiado diplomático
para insurgir os amargos da boca
mas do espectro de aromas:
nobreza vermelha, sémen silvestre
com notas de trabalho
e sugestões de morte e chocolate
mas logo a adstringência
levou ao final
prolongado e exuberante
do disparate
foi um voto, um talento, uma paixão
que abortou
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Cat people
Interregno na subtileza
1. Num mundo ideal, eu seria um votante do Partido Socialista (mas esta frase tem tanto de radical ironia como de absurdo sem remédio...). Agora, em Portugal, eu espero, francamente, que o Engenheiro Sócrates vá à vida. O uso das legítimas aspirações a igualdade legal por parte dos homossexuais como uma arma de posterior manipulação eleitoral é, no mínimo, grave. Pois agora o lobo-cordeiro está a tentar fazer algo semelhante na cultura e na educação. Claro que, sendo a direita portuguesa uma caricatura de um pensamento conservador (desde o casamento procriador ao dinheiro do estado canalizado para defender a cultura morta), é natural que as pessoas a quem todos aqueles assuntos tocam profundamente estejam à beira de um ataque de nervos. Claro que a política é (dizem-me) a suprema arte do compromisso (e se calhar sempre esteve um Sócrates no Poder, eu é que nunca liguei muito à politiquice). Mas tudo tem um limite. Este blogue está desde hoje em campanha CONTRA.
2. O Poder começa a feder: já ninguém segura os comentadores de direita! Eles andam loucos. Sociólogos de todo o mundo, uni-vos no estudo desta raça (ou psicólogos, não sei...).
3. Deve ser muito difícil gerir as finanças, a educação, a saúde, a agricultura, a política externa... É verdade. Mas não me parece que a Cultura seja um campo assim tão problemático quanto isso. Basta um pouco mais de dinheiro (que será sempre residual num orçamento de estado), e bastante mais criatividade, eficácia e isenção. Mas o que eu já li e ouvi em torno deste tópico... Algures num blogue (não me lembro qual, senão fazia o link), cheguei a ver a afirmação de que o apoio de um artista a uma candidatura política não era um factor prestigiante para essa candidatura... Bem, se um artista está a contar com o poder do seu próprio prestígio, talvez já não interesse muito como artista. E se a candidatura não for do Gandhi ou do Mandela, será melhor dizermos que é a campanha que traz pouco prestígio ao intelectual. O prestígio é um conceito que só interessa aos inseguros. Não, a cultura que releva é sempre uma forma de contestação (não porque propriamente o deva ser, mas porque, ao contrário da politiquice, coloca os seus receptores em contacto com o que de mais profundo existe neles). E por isso talvez seja útil fazer sobre ela cair o anátema da inutilidade (afinal, a utilíssima política já não trata do mais profundo que existe em nós...). Os ideólogos da esquerda só falam de militância politizada (ou seja, de redução do criador a uma única dimensão) ou de prestígio. Os ideólogos de direita só sabem defender o entertainment (segundo eles, pode-se fazer reformas contra os interesses instalados - ou seja, contra aquilo que intervém directamente nas sobrevivências, mas não se pode, por exemplo, fazer filmes contra a preguiça instalada no espectador). Os ideólogos de esquerda estão sempre à espera da caução legitimadora dos Eduardos Prados Coelhos (Deus os tenha), os ideólogos de direita querem é tratar dos calhaus e dos livros que já têm barbas. O melhor é aproveitar todo e qualquer equívoco que a Cultura provoque (já que a complicam...). Por enquanto só escrevo, não preciso de dinheiro para dar livre curso à minha criatividade. Mas se precisasse, enfim, não quereria que ele viesse do George W. Bush nem do Ahmadinejad, mas Sr. Gulbenkian, Sr. Mecenas, Sr. Ministério da Cultura, Sr. Bill Gates: seja qual for a vossa motivação, a minha é outra, e os vossos trocos são muito bem vindos.
2. O Poder começa a feder: já ninguém segura os comentadores de direita! Eles andam loucos. Sociólogos de todo o mundo, uni-vos no estudo desta raça (ou psicólogos, não sei...).
3. Deve ser muito difícil gerir as finanças, a educação, a saúde, a agricultura, a política externa... É verdade. Mas não me parece que a Cultura seja um campo assim tão problemático quanto isso. Basta um pouco mais de dinheiro (que será sempre residual num orçamento de estado), e bastante mais criatividade, eficácia e isenção. Mas o que eu já li e ouvi em torno deste tópico... Algures num blogue (não me lembro qual, senão fazia o link), cheguei a ver a afirmação de que o apoio de um artista a uma candidatura política não era um factor prestigiante para essa candidatura... Bem, se um artista está a contar com o poder do seu próprio prestígio, talvez já não interesse muito como artista. E se a candidatura não for do Gandhi ou do Mandela, será melhor dizermos que é a campanha que traz pouco prestígio ao intelectual. O prestígio é um conceito que só interessa aos inseguros. Não, a cultura que releva é sempre uma forma de contestação (não porque propriamente o deva ser, mas porque, ao contrário da politiquice, coloca os seus receptores em contacto com o que de mais profundo existe neles). E por isso talvez seja útil fazer sobre ela cair o anátema da inutilidade (afinal, a utilíssima política já não trata do mais profundo que existe em nós...). Os ideólogos da esquerda só falam de militância politizada (ou seja, de redução do criador a uma única dimensão) ou de prestígio. Os ideólogos de direita só sabem defender o entertainment (segundo eles, pode-se fazer reformas contra os interesses instalados - ou seja, contra aquilo que intervém directamente nas sobrevivências, mas não se pode, por exemplo, fazer filmes contra a preguiça instalada no espectador). Os ideólogos de esquerda estão sempre à espera da caução legitimadora dos Eduardos Prados Coelhos (Deus os tenha), os ideólogos de direita querem é tratar dos calhaus e dos livros que já têm barbas. O melhor é aproveitar todo e qualquer equívoco que a Cultura provoque (já que a complicam...). Por enquanto só escrevo, não preciso de dinheiro para dar livre curso à minha criatividade. Mas se precisasse, enfim, não quereria que ele viesse do George W. Bush nem do Ahmadinejad, mas Sr. Gulbenkian, Sr. Mecenas, Sr. Ministério da Cultura, Sr. Bill Gates: seja qual for a vossa motivação, a minha é outra, e os vossos trocos são muito bem vindos.
Sábado, Junho 20, 2009
A mais bela música de sempre? 3
Este lied de Schubert ("Der Neugierige") é pouco célebre e pouco interpretado, mas é definitivamente o meu favorito de todos os que conheço do compositor. O seu poema é extremamente ingénuo, mas a encenação musical é tão justa que é quase possível ouvir a voz do rio que ele descreve.
Não me parece que Peter Pears lhe faça muita justiça, mas talvez dê para partilhar o gosto...
Escrevi um argumento de cinema a partir desta canção.
Eu também sou um investimento de futuro...
... e aceito todos os estudos prévios que me queiram fazer. Só me reservo o direito de escolher os estudiosos.
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Fazer filmes,
Jornal "O PRIVADO",
Quem quer casar com o poetiso?
Intratado (e sem curador)
1. O espírito imaginoso não é um sintoma de evasão à realidade. Especialmente porque não nos é possível imaginar nada que não seja real. O espírito imaginoso é aquele que usa os átomos da realidade para criar moléculas de liberdade. A física do texto não é a física da vida. E se há química entre ambos, isso chama-se metafísica.
Dito isto, não gostava de ser como o Borges, que nasceu para ser cego. O que eu aprecio na imaginação é a duplicidade da imagem que ela é capaz de engendrar: por um lado exultando numa anarquia puramente mental, por outro pesando com a sensualidade da experiência. Quero escreviver um mundo onde haja árvores que dão laranjas e árvores que dão gambozinos.
Espero que isto não seja uma poética de bloco central.
2. Devo ser a única pessoa que acha que ler Dicionários de Poética e Retórica é uma modalidade do erotismo.
3. Conforme vou escrevendo, vou-me apercebendo de que os fenómenos de homofonia (como a rima) podem ser libertadores se não forem usados para estruturar o poema. Sinto agora a vontade de investigar se é possível uma igual atitude experimental perante as tendências formais que a história da poesia tentou cristalizar (em sonetos, sextinas, vilancetes, etc.). Ou seja: será possível usar uma intencionalidade formal prévia de modo a abrir o campo da forma poética em vez de o encerrar? Poderá o soneto ser uma fonte, em vez de um espartilho? Afinal, a matemática usa os números (verdadeiros modelos de rigidez) para realizar multiplicações, potências, raízes quadradas... Não sei se, no presente, ainda é impossível inventar (mas também não nasci velho como o Vasco Pulido Valente). Sei, isso sim, que o mundo antigo (esse que inventou a liberdade, a aspiração, o amor, a inquietação) não pode ser abandonado sem um pouco de luta.
4. Penso que "o trabalho do milionário", que agora estou a começar, será o livro onde eu vou formular a minha anarquia personalizada. Fuck you (diria o comendador Berardo).
Dito isto, não gostava de ser como o Borges, que nasceu para ser cego. O que eu aprecio na imaginação é a duplicidade da imagem que ela é capaz de engendrar: por um lado exultando numa anarquia puramente mental, por outro pesando com a sensualidade da experiência. Quero escreviver um mundo onde haja árvores que dão laranjas e árvores que dão gambozinos.
Espero que isto não seja uma poética de bloco central.
2. Devo ser a única pessoa que acha que ler Dicionários de Poética e Retórica é uma modalidade do erotismo.
3. Conforme vou escrevendo, vou-me apercebendo de que os fenómenos de homofonia (como a rima) podem ser libertadores se não forem usados para estruturar o poema. Sinto agora a vontade de investigar se é possível uma igual atitude experimental perante as tendências formais que a história da poesia tentou cristalizar (em sonetos, sextinas, vilancetes, etc.). Ou seja: será possível usar uma intencionalidade formal prévia de modo a abrir o campo da forma poética em vez de o encerrar? Poderá o soneto ser uma fonte, em vez de um espartilho? Afinal, a matemática usa os números (verdadeiros modelos de rigidez) para realizar multiplicações, potências, raízes quadradas... Não sei se, no presente, ainda é impossível inventar (mas também não nasci velho como o Vasco Pulido Valente). Sei, isso sim, que o mundo antigo (esse que inventou a liberdade, a aspiração, o amor, a inquietação) não pode ser abandonado sem um pouco de luta.
4. Penso que "o trabalho do milionário", que agora estou a começar, será o livro onde eu vou formular a minha anarquia personalizada. Fuck you (diria o comendador Berardo).
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